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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Mãe

Mãe, metáfora do Universo

axioma vital para a concepção

do mundo

 

palavra que se aplica a todo o fim

no que se refere a começo

e apreço

 

dama da luz que há tempos

clareou meus olhos

e embalou meus sonhos

único elo existente

entre o que sou

e o que eu não sei

origem, berço

fonte da minha memória

história minha

 

mãe d’água, mãe-do-fogo,

mãe-terra, mãe de Deus

e todas as mães

pela mãe vida

sejam elas abençoadas

 

no fundo és da própria vida

imagem e semelhança

estampada nas rugas

que intimidam

e no amor que se mantém

como dantes

 

imortal és

como a vida,

porque de ti

tudo depende

tão transcendente e grande

é o teu significado

 

Sua bênção

mãe da minha saudade

Reflexão sobre a percepção de valor intrínseco


Este texto circulou em alguns jornais eletrônicos e foi resgatado e enviado a mim pelo meu aluno Emanuel Souza.

 

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô: vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.

Mesmo assim, durante os 45 minutos em que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes.

Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.

 Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.  A experiência, gravada em vídeo:   http://br.youtube.com/watch?v=hnOPu0_YWhw, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino.

A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

 A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num  contexto.

 Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de  grife.

Esse é um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas que são únicas, singulares e a que não damos a menor bola porque não vêm  com a etiqueta de seu preço. O que tem valor real para nós, independentemente de marcas, preços e grifes? É o que o mercado diz que  você deve ter, sentir, vestir ou ser? 

Essa experiência mostra como, na sociedade em que vivemos, os nossos  sentimentos e a nossa apreciação de beleza são manipulados pelo mercado,  pela mídia e pelas instituições que detém o poder financeiro.

Mostra-nos como estamos condicionados a nos mover quando estamos no meio do rebanho.

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Qualquer madrugada

A luz invade aos poucos

a fresta da cortina

e revela o recomeço da saudade

 

traduz a emoção

das galerias paulistanas

ao findar a madrugada lenta

como a chuva rala

que ralenta o dia

 

essa luz que te transforma em sombra

ao amanhecer do dia

deixa sempre uma lembrança

frágil de que tudo existe

do lado de lá da cortina

 

e te alcançar é penetrar os umbrais

sem armas, a ermo

saboreando os momentos em que

o sentimento pule o coração

que passa a refletir a luz

invadindo a fresta da cortina

 

aí, então, a saudade

transforma-se em sonhos

que se multiplicam

em realidades infinitas

acessíveis apenas àqueles

capazes de conhecer

o fundo da tua dor

que se encontra no fundo da minha dor

e se espalha por todas as dores

e revela a eternidade de cada momento

 

nessa hora

o meu momento

é o seu momento

e eu jamais

perderia isso

O folclore na obra de Villa-lobos e o papel do artista no regate da identidade nacional

 

Este texto foi escrito em 1996, durante o curso de Habilitação em Música na UnB, com a colaboração dos então alunos como eu Renato Vasconcelos e Renato Amaral

 

 

 

 

"...porque é neste princípio do homem

que nasce numa terra,

que se embeleza dela mesma,

para se enfeitar dela mesma,

e se mirar nela mesma,

é que sinto o que pode ser de universal,

porque, para mim, quanto mais somos

da terra que nascemos,

mais somos universais."

 

(Heitor Villa-Lobos)

 

 

INTRODUÇÃO

  

"O Brasil é o país do futuro". Quantas vezes e em quantos lugares já ouvimos isso! Será que somos? Será que temos condições de arcar com tal responsabilidade? Temos estrutura para virmos a ser um País sem fome, sem analfabetismo? Um país de um povo em crescimento, soberano, íntegro e, principalmente, vivo?

Situada tal pergunta no banco dos réus de um tribunal da lógica, promotoria e defesa teriam argumentos para um debate que se estenderia pela eternidade afora. Temos tudo para ser e tudo para não ser o "país do futuro".

O que fazer com tamanho leque de possibilidades? Aí reside o perigo. O excesso de opções pode vir a ser um tiro pela culatra na cara do atirador. A formação do povo brasileiro, como a de qualquer povo, se faz através da "administração" das possibilidades, das escolhas, dos rumos que tomam as vidas das pessoas.

Tal dinâmica se dá dentro de níveis cada vez mais abrangentes, sempre coletivos, mas tem no cultural o sua "mola-mestra". A hegemonia da cultura na psicologia humana é o grande desafio com que se depara o indivíduo. Isso porque, ao estilo "bola de neve", a cultura é o seu próprio fermento. Somos engolidos pela cultura minuto a minuto e então corremos atrás de nossas origens, numa busca incansável, para não nos perdermos no meio dessa diversidade cultural, de enormes proporções. A miscigenação progressiva das três raças constituintes de seu povo, se pesquisada, avaliada e difundida mostrará que existem subsídios para uma formação cultural extremamente rica, mas que se consome sob o rolo compressor da "bola de neve" da cultura.

O desequilíbrio sócio-econômico tem criado, nos países do 3o. Mundo, um mercado certo para produtos culturais exportados pelos "senhores da comunicação", causando nos primeiros a descaracterização progressiva da sua identidade cultural[1], e aniquilação dos seus referenciais via importação direta.

E que opções tem a sociedade nessa convivência às vezes não muito pacata? Dufrènne[2] fala de três soluções propostas: uma passiva, de fornecimento de condições para uma auto-imposição; outra, radical, defensora da cultura autóctone, predominante nos países de 3o. Mundo; e uma terceira, sintética, para onde se orientam as ideologias nacionais do tipo "latino-americanas".

A terceira opção de Dufrènne é característica das sociedades tradicionais, que sofrem com o impacto das culturas industriais modernas. A comunicação moderna provoca, a cada segundo, o choque entre tradição e renovação. O resgate da tradição se torna talvez o único veículo capaz de manter-nos unidos às nossas identidades, desde que baseado na síntese e não na oposição pura e simples.

 

DE BONAPARTE À SEMANA DE ARTE

 

Sob um Império que importava até imperadores e abastava a nobreza, que não trazia o menor vestígio de tradição, regionalidade ou força, vivemos uma independência socialmente ilusória, que nos subjugou às hegemonias políticas e ao capitalismo industrial do início do século XX. Exportava-se café; importava-se moda. Era a belle-époque brasileira, do consumismo importado, dos versos brasileiros declamados em francês nos saraus proporcionados pelas elites.

Mas, lembrando o 'tiro pela culatra", tal desenvolvimento forneceu condições essenciais para geração de um movimento contrário, rumorejados nos cafés por artistas, estudantes, jornalistas... e que já não mais aceitava a visão colorida do Brasil, ao gosto das elites. Era o germe de uma visão crítica da sociedade brasileira, também fervilhando na organização política dos operários e das minorias e difundida através do nascimento da pequena imprensa de protesto. Era o desejo de emancipação intelectual, a busca da realidade brasileira sem idealizações.

Tal dinâmica vai conduzir à Semana de Arte Moderna, em 1922. A divulgação das teorias vanguardistas européias e a busca da verdadeira identidade nacional, envolvendo toda a estrutura sócio-econômica do País, gerou mudanças nos meios de expressão. O nacionalismo crítico de autores como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha e muitos outros, encontrava-se na busca da matéria brasileira, inserindo na produção artística mudanças profundas, que levarão a uma exploração cada vez mais criativa do folclore e da tradição oral.

 

HEITOR VILLA-LOBOS

 

No caldeirão desse universo cultural surge a figura iluminada de HEITOR VILLA-LOBOS (1887-1959), em quem o nacionalismo encontra sua mais perfeita expressão. Órfão de pai aos doze anos, passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes até se tornar compositor e regente, "de importância decisiva no amadurecimento de uma expressão nacional".[3] Através do estudo do violão, teve contato com os chorões do Rio de Janeiro. Este contato com o popular marcaria toda sua vida daí em diante, desenhando uma busca pelo folclórico, que se delineou sobre a colheita de material regional em todos os cantos do Brasil, anotados em viagens que fazia desde os dezoito anos. Essa procura incansável resultou em um acervo respeitável do cancioneiro popular - parte registrado no seu "Guia Prático" para o ensino do canto orfeônico nas escolas.

Villa-Lobos lutava contra as influências externas. "Quando sinto a influência de alguém - dizia - me sacudo todo e salto fora” [4]. Sentia que o presente século trazia, de um lado, o paradoxo do crescimento universal do padrão de vida mundial, e de outro, o amor progressivo, turístico, ao pitoresco, já agonizante aos golpes da descaracterização.

Sua imaginação produtora tateava pelos elementos primários e se encontrava com as células simples, ainda não modificadas pela presença dos demais elementos de nossa raça mutável e múltipla. Pode-se sentir em Villa-Lobos a presença de singulares afinidades com nosso mais simples modo de ser; com a as particularidades de nossa alma.

Utilizando assiduamente o material folclórico, absorveu dele indicações preciosas e aproximou-o do "nosso verdadeiro clima de alma, de atmosfera dentro da qual são geradas nossas determinantes expressionais” [5]. Mas Villa-Lobos não se restringiu ao tema popular, sendo sua obra, ao contrário, extremamente prolífica. Suas primeiras composições traziam a influência dos estilos europeus da virada do século - como o alto romantismo francês. Com suas Danças Características Africanas, para piano, e com os bailados Amazonas e Uirapuru começa a desmoronar-se o molde europeu.

Em uma primeira viagem a Paris, entra em contato com a vanguarda européia e nasce sua fantástica série dos Choros, e após uma segunda permanência na França, volta ao Brasil em 1930, dedicando-se, a partir daí, a desenvolver um importante trabalho educativo, patrocinado pela Revolução de 30, período que nos dará maravilhas como as suas Bachianas Brasileiras, que mostram a devoção por Bach.

Sua obra é muito extensa e não cabe aqui uma análise detalhada. Passeando pelo folclore Villa-Lobos nos deu as Cirandas, no Ciclo Brasileiro, música pianÍstica de forte influência impressionista, inspiradas diretamente em motivos folclóricos, Vamos Atrás da Serra Calunga e Teresinha de Jesus.

Mas é com seu Guia Prático, anteriormente citado, criado a partir de harmonizações suas para músicas do cancioneiro popular, arranjadas para o ensino de canto coral, que o aproveitamento do folclore é mais direto. É nesse ponto que se desenrola toda preocupação de Villa-Lobos com a educação, e toda sua vontade de tornar acessíveis as riquezas do folclore aos alunos de educação musical, em que ele depositava tantas esperanças.

Sabemos que a música é elemento unificador; sabemos que é capaz de promover e resgatar impulsos emocionais que podem ser positivos ou negativos; sabemos também que "a cultura popular pode intervir como elemento moderador no processo cultural, pois dispõe de instrumentos próprios para o equilíbrio necessário ao seu harmônico desenvolvimento".[6]

Assim, consideramos que na música, mas não somente nela, está um meio eficiente de se resgatar a identidade nacional, através da pesquisa e difusão - e a música tem alto poder para tal - da memória cultural brasileira, dos temas populares ligados às tradições antigas.

 



[1]Segundo modernos estudiosos do problema, "nestes países, a cultura nacional não é mais vivida como antes, numa espécie de inocência feliz. Tendo sido ameaçada, depreciada, muitas vezes semidestruída, ela agora é pensada e desejada, como um meio de auto-afirmação intransigente e apaixonada". (artigo de Maria Célia Machado, em REVISTA HUMANIDADES, vl. 22, pg. 100)

[2]ibid.

[3]DICIONÁRIO DE MÚSICA. Zahar, em Villa-Lobos, Heitor, pg. 401)

[4]Luiz Paulo Horta. Em artigo para a Revista HUMANIDADES, vl. 13, pg. 83)

[5]Andrade Murici. VILLA-LOBOS. UMA INTERPRETAÇÃO., PG. 14)

[6]Bráulio do Nascimento em Carlos Rodrigues Brandão. O QUE É FOLCLORE, pg. 23. Ed. Brasiliense. 3a. ed. 1983.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. 3a. ed. Ed. Brasiliense. 1983.

JUNIOR, Benjamim, Abdala e CAMPEDELLI, Samira Youssef. Tempos da literatura brasileira.  Ed. Círculo do Livro. SP.

ALMANAQUE ABRIL 89. Ed. Abril. SP.

HORTA, Luiz Paulo. O som de Villa-lobos: terra e paixão, REVISTA Revista Humanidades. Ed. UnB. Brasília. 1987. Vol. 13.

MACHADO, Maria Célia. Villa-lobos e o dilema da cultura brasileira. Revista Humanidades. Brasília: UnB, 1989, vol. 22.

MURICY, Andrade. Villa-lobos - uma interpretação. MEC. BSB.

PEREIRA, Marco. HEITOR VILLA-LOBOS - sua obra para violão. Brasília: ed. Musimed. 1984. DICIONÁRIO DE MÚSICA - Zahar Editores. RJ. 1985.

ALVARENGA, Oneyda. Música Folclórica e Música Popular. revista Brasileira do Folclore. Ano IX. no. 25. MEC/CDFB.

REVISTA BRASILEIRA DE MÚSICA. 87/88. Vol. 1, pg. 55/56. A Música Popular e Villa-Lobos.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sobre homens e cachorros

Em um certo ponto da minha vida acadêmica eu aprendi com Murray Shafer que depois da invenção do motor elétrico a sonosfera do planeta jamais seria a mesma. E o pior é que era verdade. O silêncio não é mais uma opção do indivíduo. A todo o instante há o um ruído de algum motor pairando no ar. Mesmo nos mais recônditos e isolados desertos e mares do planeta, sem ar condicionado, geladeira, automóveis e etc, você está sujeito a ouvir um jato passar sobre sua cabeça a milhares de metros. Isso é o que tinha de ser. Isso é a civilização.

De uns tempos pra cá, morando num prédio do Guará I, em Brasília, descobri algo mais infernal e perturbador do que o barulho de um motor a jato: cachorros. Muitos cachorros. Não cachorros nas ruas, sem dono. Esses, pouco se vê por aqui. Cachorros com donos. Cachorros nas casas, cachorros nos apartamentos. Casas com cinco, quatro, seis cachorros. Geralmente cachorros pequenos, tipo bassets, poodles, chihuahuas e outros do tamanho da consciência comunitária de seus donos que, não se contentando com a perturbação constante e diária que provocam na vizinhança, saem com seus animais para passear às cinco, seis horas da manhã,  muitos  deles sem coleira. Animais que seguem latindo no ouvido daqueles que trabalham até mais tarde e não têm muito tempo para pensar nas carências afetivas que provavelmente levam essas pessoas a chamarem seus cachorros de “filhinhos da mamãe, bebezinhos da mamãe”,  como já ouvi. É inacreditável que um cidadão tenha seu horário de acordar definido pelos “filhinhos da mamãe”.

Pior que tudo isso é pensar que, ao invés de procurarmos compensar a quantidade de ruído necessária que a civilização já exige (nem sempre) estamos gerando mais ruídos, ruídos desnecessários, contribuindo para o stress da comunidade. Na mesma fonte onde aprendi sobre o barulho e o motor aprendi que aproximadamente setenta por cento  dos casos de doença mental nos Estados Unidos eram, na época, conseqüência do excesso de barulho. Quem nos garante que o barulho não é responsável em grande parte pelas ações de psicopatas que atiram em colégios e cinemas, de pessoas que matam outras a pancada por pequenos conflitos, que se embriagam e atiram seus carros contra os outros ou atropelam pessoas em pontos de ônibus. Poucos exemplos para uma sociedade tão neurótica.

Neste momento em que escrevo este desabafo, escutando Saudade do Brazil de Tom Jobim, no fone de ouvido, não consigo separar as celestiais nuances harmônicas e timbrísticas do mestre, do barulho dos cachorros dos vizinhos e dos carros de som que circulam durante todo o dia sob minha janela do segundo andar, anunciando supermercados, igrejas, pamonhas, concertos de panela, gás, sorvetes e o diabo a quatro. Seria simples se tivéssemos uma “porta” acústica que permitisse deixar do lado de fora de nossas residências os ruídos externos como o fazemos com as pessoas indesejáveis.

Acho que já passou da hora de nos preocuparmos com o ruído. E, como músico, não posso deixar de colocar no mesmo balaio uma grande parte da porcaria musical que se ouve hoje. Mas essas porcarias, pelo menos, eu tenho o direito de ouvi-las ou não.

Em muitos outros países há organizações voltadas para essa discussão que praticam atos de proteção à sociedade e lutam por leis contra o barulho desnecessário, excessivo e generalizado. Precisamos criar uma cruzada contra o ruído desnecessário, um Silence Peace brasileiro, ou corremos o risco de nos matar a todos por excesso de barulho. Seria cômico se não fosse trágico.

Agora que o vinil do Tom acabou e os cachorros continuam  latindo, vou colocar no “cd player” o universal disco Sarkis de minha amiga Cláudia Cimbleris, fechar minha “porta acústica”,  e agradecer por ter a chance de transmutar meu stress em êxtase cósmico e de poder dizer isso tudo a vocês. 

Sobre educação musical

E lá vai o homem, ser social, a equilibrar-se na corda bamba do desenvolvimento, esse ente abstrato que se incorpora à sociedade, provoca crises de comportamento e fragmenta o conjunto das relações sociais. É a experiência humana!

E lá vai o homem, a se adaptar à circunstância histórica, a modificar o meio, a se transformar em um novo homem a cada momento. É a cultura humana!

Experiência e cultura andam juntas, se tocam, viajam pelo tempo e pelo espaço através da sabedoria dos antepassados. Provocam o homem. É a educação!

De geração a geração, pela educação. Educação que deve ser naturalista, no que concerne ao estímulo à auto-descoberta e à valorização do interesse pessoal; que deve ser idealista, considerando-se a preocupação com a organização,  com o planejamento e com a metodologia e por uma disposição de promover o pensamento sintético e buscar a aplicação do conhecimento; que deve ser realista na ênfase à prática, principalmente se diminuída a importância exagerada dada aos conteúdos; e que deve ser, acima de tudo, pragmática, pela valorização da experiência, pela ampliação dos limites específicos de sua contribuição e, principalmente, pela importância dada à aplicação do conhecimento. Educação que deve ser instigante e transformadora, ao ponto de promover tempestades voluptuosas no interior do ser humano e extrair dele as suas capacidades mais recônditas. Acho que sou um eclético!

E a arte? E a música? Deve a educação se utilizar da música para cumprir o seu propósito? E por que não? Nada toca mais profundamente o ser humano do que a música, essa abstração sonora que é capaz de mexer com os sentimentos do mais bárbaro dos bárbaros. Traz em si o belo, mas extrapola tal limite ao atuar na personalidade humana, carregando um poder transformador que arrebata a criatividade, potencializa a expressividade e traz a sensibilidade à flor-da-pele. Música que deve ser ouvida. Música que deve ser tocada.

Devemos deixar de ser os egoístas que investem todas as suas forças em busca de mudar o mundo - para melhor - para seu proveito próprio. Impossível. Só se muda o mundo mudando-se as pessoas. Só se transformam as pessoas educando-as, desde a mais tenra infância, para a vida em sociedade, para uma compreensão do seu papel em relação à contemporaneidade da dinâmica social. Tal descoberta se processa no desenvolvimento de sua individualidade que só se pode manifestar se encontrar espaço para isso. Esse pode ser o papel da música na educação: fornecer o espaço à individualidade. Assim, forma-se a personalidade em estreita ligação com a própria natureza do indivíduo que, se é individual nas suas aplicações, é coletiva em suas implicações.

Uma música que eduque ou uma educação que cante? Tanto faz, ou melhor, ambas! A música, que, ensinada em sua linguagem promove a descoberta de relações estéticas infindáveis, que ouvida em sua integridade arrebata os nossos corações de pobres mortais, e que executada dá ao executante a possibilidade de vivenciar estados somente a ele permitidos, deveria se tornar um vírus imortal que se infiltrasse pela educação adentro e lhe provocasse acessos de euforia tamanhos que fossem incontroláveis. Aí, não haveria mais retorno. O homem teria que se tornar a música.

Pêndulo

Acordo
atônito
ávido
digno

recordo
êmbolo
sádico
mínimo

disponho em versos
ordeno em fatos
repasso os atos
e desato o tempo
infinitamente
pertinentemente
voando alto
explorando do fundo

e deito
afônico
e durmo
cínico

sonho o mundo
e acordo

O significado da arte

Ao contemplar uma pintura de uma garça um monge chinês reagiu com a seguinte frase: “clareando-se a água vêem-se os peixes”. Ao dizer isso, o monge abstraiu uma imagem que, para o ocidental não tem grande significado, mas, para o oriental, representa, com toda a grandeza de sua simplicidade, a síntese de uma existência. Provavelmente, um cidadão ocidental, diria algo como “que lindo”, “que perfeição”, “que bonitinha” a um quadro de uma garça pendurado em uma sala qualquer.

Essa enorme diferença na relação com o objeto é resultado da singularidade do fato artístico, um processo que vai desde o pensar, o optar, o fazer até o fruir. Não se extingue ao término de sua produção, muito ao contrário, prolonga-se em direção à alma humana.

A produção artística é uma enorme reflexão pessoal e espontânea que se manifesta através de uma visão totalizadora e dedutiva do mundo. O artista, quando cria, não se deixa possuir pela emoção, ao contrário, doma-a. E, ao escolher o tema, reflete não só aspirações pessoais, mas também as condições sociais e a consciência histórica prevalecente. E isto vale para o artista e para o público. Por isso mesmo, cada povo elabora o seu conceito de arte.

A arte é condicionada pelo seu tempo e representa a humanidade em consonância com as idéias e aspirações de uma situação histórica particular. De mágica, a arte se transformou em clarificadora das relações sociais, em catalisadora do reconhecimento e da transformação da realidade social. Talvez seja essa atitude, que surge de dentro do momento histórico, e que procura constância no desenvolvimento da arte, a ponte de ligação entre o indivíduo isolado e uma experiência plena. O autor, ao criar sua obra, busca refundir-se num espírito coletivo fraudado pela individualidade, com todas as suas limitações, numa busca incessante de absorver o mundo circundante, apoderando-se de experiências alheias que potencialmente lhe concernem ao mesmo tempo em que procura tornar social a sua individualidade: reflete a infinita capacidade humana para a associação e para a circulação de idéias.

Para o fruidor a arte propicia a oportunidade de perceber um mundo geralmente negligenciado, constituindo-se como fonte de conhecimento e de prazer. Sentir é a nossa primeira impressão do mundo, até então sincrética e pura. Aos poucos, vai se transformando em condicionamento e o fruidor começa a acumular padrões estabelecidos. A experiência estética, vivenciada em sua plenitude, revela distanciamento do objeto, propiciando manifestações emocionais inusitadas e impessoais.

A produção artística atua também, e em grande escala, na formação do indivíduo, tanto pela própria experiência da fruição como pelo treino no uso da linguagem não-verbal. Atua no relaxamento da tensão e no alívio da excitação emocional e promove o desenvolvimento da sensibilidade de captação dos sentimentos de comunidade humana. A relação com a arte promove uma forma holística de se relacionar com os fatos, uma condição de vivência que gera respostas mais práticas e rápidas. Por isso mesmo a arte constitui-se num recurso pedagógico de grande valor, pois desenvolve um sentido de percepção geral, concentração, reflexão e expressão, e dá ao indivíduo oportunidade de manifestar suas inquietações e elaborar seus sentimentos.

No fundo, a arte significa a vida. As diferenciações disciplinares, didáticas, entre os campos das artes não se manifestam naquilo que a arte traz de suas regiões mais abissais: a expressão do sentimento. Algo que língua nenhuma pode traduzir, apenas classificar. Algo que trazemos dentro de nós mesmos e que se liga ao coração da existência, à harmonia buscada em todas as formas de vida. Todas as manifestações artísticas se inter-relacionam justamente porque estão ligadas por esse fio invisível. Na prática, para um músico como eu, curioso sobre todas as variedades de “artes”, a interdisciplinaridade é importante, pois cada forma de expressar traduz a mesma relação existencial e, de maneira tranqüila e profunda, a mesma busca de cada artista: a (des)integração universal.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

·        Ehrenzweig, Anton – A Ordem Oculta da Arte  A Psicologia da Imaginação Artística – Weidenfeld eNicolson – Londres – 1967;

·        Fischer, Ernst – A Necessidade da Arte – Verlag der Kunst – Dresden – 1963;

·        Osborne, Harold - A Apreciação da Arte. Cultrix. SP. 1970;

·        Gombrich, E.H. – A História da Arte – Introdução – Traduzido da 3ª edição;

·        Jung, Carl Gustav –Psicologia e Religião Oriental – Pensamento;

·        Oliveira, Marta Kohl –Vigotskii – Aprendizado e Desenvolvimento;

·        Porcher, Louis – Educação Artística – Luxo ou Necessidade?  - São Paulo – Summus – 1962);

·        Eco, Humberto – A Obra Aberta. Perspectiva. SP. 4ªed. 1986.

Memorial da formação musical

Como a maioria das crianças de todo o mundo, meu primeiro contato com a música se deu ainda no berço, embalado por canções de ninar das quais minha mente não tem recordações, mas que, com certeza, deixaram marcas inconscientes.

Meus pais não eram ouvintes de música, o que me deixava como alternativa de audição musical aquelas músicas que rolavam no rádio de pilha de minha mãe, radinho que ouvia enquanto fazia nosso almoço. Aparelho de som, nem pensar!

Aos nove anos de idade, morando em Juiz de Fora, ganhei um cavaquinho de brinquedo, daqueles de plástico com cordas de nylon, de pesca. Para mim foi um deslumbre. A inspiração vinha de uma vizinha, bem mais velha, pela qual eu tinha um certo fascínio, e que era fã de Roberto Carlos. Daí, eu “solava” as melodias do “Rei” na varanda, especialmente pra ela, na vã esperança de chamar sua atenção. Esse idílio platônico se desenrolou até o dia em que um amigo meu, de proporções físicas avantajadas, veio à minha casa e sentou-se em cima do instrumento, que se encontrava no sofá. A visão do companheiro partido em dois foi a última que tive de um instrumento, tão próximo de minhas mãos, por muito anos.
Aos quatorze anos, morando em Brasília, tive um vizinho que tocava bastante amadoristicamente um violão verde, com uma espécie de estrela de várias pontas na abertura. Eu achava lindo! Até que um dia, já trabalhando em uma banca de jornais, consegui juntar uns trocados e comprei o violão verde. Foi a glória. Arranjei alguns professores medíocres, dos quais me livrava rapidamente, até que resolvi tocar sozinho. E fazia isso comprando revistinhas de violão que achava nas bancas. Algum tempo depois, com um emprego melhor, mais experiência e um bom violão na mão, tive contato com professores qualificados, quando comecei a aprender alguns rudimentos de música e a compor algumas ingênuas, mas engajadas canções. Com a descoberta do violão, descobri a MPB, a bossa-nova, e a Tropicália. Então se iniciou um porre de Tom, Vinícius, Caetano Veloso, Gil, Chico e uma infinidade de “novidades”, que surgiam para meu delírio.

Em 1981 (trabalhava no Banco do Brasil desde 1974), mudei-me para Natal (RN), em busca de outros ares, e lá comecei a fazer algumas apresentações em bares. O contato com a música nordestina foi dos mais agradáveis e didáticos e a inauguração da Escola de Música do Milton Nascimento, em Belo Horizonte, foi o “gancho” que faltava para uma decisão: ser músico. De malas feitas, rumo a Belo Horizonte, estudar música. Abandonei o curso de Psicologia que havia começado na UnB e fui estudar música. Fiquei pouco tempo na escola e continuei meus estudos de forma autodidata. Em 1984, no Teatro Municipal de Ouro Preto, estreando, apresentei o show “Coisas da Vida”, somente com músicas de minha autoria.

De lá para cá, muita água rolou e muitas apresentações aconteceram em Minas e Brasília. Hoje, de volta a Brasília desde 1992, licenciado em Música pela Universidade de Brasília, tenho trabalhado menos em bares, o que fiz durante todos esses anos, porque não tenho mais paciência para conviver com a banalização da música, com a desvalorização do músico e com a prepotência de muitos empresários. Eventualmente apresento shows onde procuro mostrar um pouco da música que faço e da música que gosto. Em 2000 me tornei professor concursado do GDF e hoje leciono na Escola de Música de Brasília, por onde passaram e ainda passam grandes cabeças musicais. um cd - Portfólio - em 2004, com músicas de minha autoria e com parceiros que também são meus amigos, e procuro divulgá-lo da maneira que posso.  Em 2012 gravei meu segundo cd e em 2014 produzi e dirigi meu primeiro videolipe.