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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA"


Mais uma pérola do parceirinho Marcos Santana.


VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA



Marcos Apolinário Santana



        A cirurgia no coração de dona Santa estava marcada para o sábado,  24 de fevereiro, mas o doutor Jonas resolveu adiá-la para o dia 28. O cardiologista, um dos mais renomados da cidade, havia combinado um programa diferente naquele Carnaval, bem distante dos bisturis e tesouras do hospital em Belo Horizonte.

        A fuga era estratégica: depois de ter se separado de sua mulher, uma ninfomaníaca portuguesa, após um ano de casamento, doutor Jonas se viu morando sozinho num apart-hotel. Deprimido, ele sentia que suas ágeis mãos de cirurgião cardíaco já não acompanhavam a sua cabeça. Era preciso dar uma parada para se reconstruir. Foi então que ele resolveu aceitar o convite, feito por uma colega de Brasília, para passar o carnaval de 1990 em Olinda.

        O grupo, com maioria de médicos de Minas, Brasília e São Paulo, resolveu alugar um sobrado, localizado na efervescente Rua do Amparo, corredor da folia da velha cidade pernambucana.

        Os novos moradores do sobrado começaram a chegar no sábado, todos querendo sentir o ritmo do frevo e do maracatu. De Brasília, a doutora Fátima foi quem articulou o aluguel do casarão de seis quartos, onde ficariam os 16 foliões, médicos de várias especialidades, além de um jornalista e uma psicóloga, que pirou desde a hora que chegou na cidade. Seu nome era Margareth, que Jonas, logo que a viu, apelidou de Princesa do Ébano, por ser uma bela negra, com uma enorme “saúde”.

        O encontro do médico estressado com a psicóloga pirada foi o ponto de partida daquele carnaval inesquecível. Ela trouxe de Brasília uma faixa preta, em que estava escrito em branco: “Casarão dos durangos kids”. Gritando palavras de ordem contra o poder, ela logo ganhou o combalido coração do doutor.

        A primeira noite no sobrado, sábado de carnaval, já era o termômetro do que iria acontecer por ali. Os novos habitantes chegavam a todo momento, e se apresentavam uns aos outros. Roupas, malas e bagulhos estavam por todos os lados e as fantasias se espalhavam pelo chão.  O cenário dava o tom da catarse que estaria por vir.    

-                                    Eu quero me acabar nesse carnaval – disse Margareth já nos braços de Jonas, que esquecido dos instrumentos cirúrgicos, vestia uma tanga de índio e um colorido penacho na cabeça.

        Fafá – a sanitarista de Brasília – estava fantasiada de bailarina e, como em todos os anos, passava o carnaval em Olinda e era a tesoureira do grupo. Ela fez as compras dos mantimentos para os quatro dias de folia: macarrão, salchicha, frutas, água, cervejas e muita cachaça.

        Tetê, a pediatra de Juiz de Fora, enlouqueceu atrás de uma orquestra de frevo e se perdeu nas ladeiras de Olinda. Com o seu sumiço, passou a ser procurada por todos. A confusão no sobrado do Amparo só estava começando.

        Com a rua coalhada de gente, o grupo saiu em busca da médica mineira que surtou e no sobrado ficaram apenas Jonas e Margareth. Foi o início de um idílio carnavalesco difícil de se esquecer.

        -          Princesa do Ébano, não saia de perto de mim, meu coração está pipocando – disse o cardiologista.
        -          Vem meu cacique, me faz de gato e sapato e me joga na parede – respondeu a psicóloga.

        Assim, com o sobrado vazio, os dois começaram uma esfuziante relação, indiferentes ao sumiço de Tetê, que àquela altura já preocupava a todos os recém-chegados. Ao som das bandas que passavam pela rua, os dois se contorciam com o som e a fúria do frevo. O quarto foi trancado e ninguém saía de lá para nada, até que a turma voltou com Tetê nos braços. Ela estava um verdadeiro bagaço: braços arranhados, cabelos desgrenhados, sem sapato e com muitas marcas de chupões no pescoço, além de totalmente bêbada. Logo ela, que era abstêmia em Minas.

        Fafá botou Tetê debaixo do chuveiro, mas ela estava tão enlouquecida que saiu correndo para rua novamente ao ouvir o som do maracatu e esqueceu que estava completamente nua. Todos saíram novamente atrás dela. Menos o já chamado “casal 20”, que sequer abriu a porta do quarto para ver o que estava acontecendo. 

        Com a chegada da noite, todos estavam de volta para fazer o macarrão com salchicha. Tetê estava desmaiada no chão, em coma alcoólico; Fafá dançava um frevo de Capiba feito louca pela sala; Big, sindicalista que veio de São Paulo, tomou tanto “pau-do-índio” que queria pular da sacada do sobrado dizendo que era o “super-homem”, mas, foi agarrado e imobilizado por três pessoas. No quarto de Jonas e Margareth somente se ouvia o replicante som da antiga cama de molas, no interminável chiado do amor do médico com a psicóloga.

        No domingo de carnaval, Olinda amanheceu ainda mais colorida, ao som dos metais que inundava ruas e vielas. A turma do sobrado da Rua do Amparo foi acordada com a invasão dos foliões do bloco “A corda”, que entravam nas casas para acordar todos que tentavam dormir. Menos no quarto do “casal 20”, que permaneceu trancado.

        Depois do almoço, cujo cardápio era o de sempre, Fafá convocou os foliões para acompanhar o bloco “Segurucu”, que trazia um estandarte com o dedo médio em riste, dedicado ao algoz da penúria do brasileiro. Era a catarse do povão.

        Quando o bloco passou, todos desceram as escadas do sobrado com suas fantasias: tinha pirata, Cleópatra, nega-maluca, caboclinha, cu-de-chocalho, bailarina e palhaço. Todos se misturaram aos passistas que gritavam um uníssono: “Segurucu! Segurucu!”. E o frevo desvairava ainda mais a multidão.

        Menos os habitantes do quarto trancado, que finalmente se abria, após mais de 30 horas de confinamento. Com as caras abatidas pela insônia e excesso de saliências, doutor Jonas e sua partner foram olhar da sacada do sobrado o burburinho da rua e viram que Olinda estava pegando fogo. Mas, não tanto quanto a volúpia da dupla, que continuou nos amassos e beijos enquanto o povo frevava lá em baixo.

        -          Se eu morrer agora, morrerei feliz – disse o doutor para Margareth
        -          Vamos voltar pro quarto, Jonas? Eu quero ser a sua baleia...
        -          Você não quer comer? Tem macarrão com salchicha...
        -          Não, só quero você! – Disse a Princesa do Ébano arrancando a tanga do doutor, sem notar que todos que passavam em baixo da sacada estavam vendo a cena toda e fazendo a festa.

        E assim, indiferentes, eles voltaram a se trancar no quarto, quando já havia uma torcida na rua para que Margareth arrancasse a única peça que vestia: uma calcinha vermelha com um pompom na frente.        

        À noite, toda a turma estava de volta para tomar banho, comer a mesma gororoba de sempre e continuar na folia, dessa vez no centro de Recife. Mas o casal 20, continuava indiferente aos reclamos de todos para que saíssem do quarto. Todos os apelos foram em vão e mais uma noite se passou no caliente sobrado da Rua do Amparo.

        Segunda-feira de carnaval. Os foliões estavam exaustos, mas prontos para mais um dia de loucura pelas ruas da cidade. Fafá, desconfiada, comprou um kit de gravidez e descobriu que estava grávida e foi dançar num maracatu que passava pela rua; Tetê comprou um litro de vodca, colocou na mamadeira, com leite condensado,  e saiu cantando “Mamãe eu quero”; Big foi atropelado por uma bicicleta e terminou levando quatro pontos na perna. Os outros habitantes do sobrado foram atrás do bloco Pitombeiras, e, mais uma vez, Margareth e Jonas ficaram se atracando no cafofo, de onde se ouviam apenas os gritos e sussuros, mas dessa vez com um cartaz na porta, onde se lia “Vão à merda!”.

        Terça-feira de carnaval. O último dia sempre tem um sabor especial. Finalmente o casal encarcerado saiu do quarto. Os dois estavam num estado deplorável, enrolados no lençol e famintos. Eles foram recebidos com aplausos pela turma, que, àquela altura do campeonato, já estavam todos completamente bêbados e com as pernas exaustas de tanto frevo.

        -          Tem comida aí? – Perguntou Jonas para Fafá, que também fazia o papel de cozinheira.
        -          Tem macarrão com salchicha – disse mostrando um panelão cheio com a sua especialidade.
        -          Eu quero, disse Margareth com cara de fome de três dias.

        E o resultado foi devastador e avassalador: os dois comeram a panela inteira do almoço que foi preparado para 16 pessoas do sobrado e caíram no chão extasiados e lambuzados de extrato de tomate.

        Sem ter o que comer, todo mundo teve que se virar para almoçar na rua e encarar o último dia de carnaval. Tetê, a doutora abstemia, que havia se tornado uma devoradora de cachaça, mais uma vez, se perdeu pelas ladeiras de Olinda, e saiu gritando: “Ah! Eu sou devassa!” . E a turma todo saiu atrás dela, que só foi encontrada desacordada na praia dos Milagres ao lado da placa “Cuidado: tubarão”.

        Sozinhos no casarão, Margareth e Jonas, saciados da fome, partiram para a última noite de amor, com mais som e fúria. Na porta trancada, um novo aviso: “Afastem-se: aqui o império é dos sentidos”, uma referência a um filme de arte japonês.

        Na quarta-feira de cinzas, hora de sair em retirada, todos se preparavam para tomar o avião e voltar pra casa. Mochilas, colchonetes, panelas e restos de fantasias se espalhavam por todos os lados. Margareth e Jonas saem do quarto direto para o banheiro, onde tomaram banho juntos de uma hora, acabando o reservatório de água do sobrado.

        -          Hora de voltar pra BH – disse Jonas, com a mala pronta, para os outros, que incrédulos, tiveram que pegar seus voos sem tomar banho. E voltou naquela manhã.

        À tarde da mesma quarta-feira, de volta no hospital, Dr. Jonas estava pronto para realizar a cirurgia que havia marcado há quatro dias, mesmo com as olheiras que não negavam que o carnaval havia sido muito animado.

        Dona Santa, a paciente, foi logo perguntando ao doutor Jonas:

        -          Como foi o carnaval de Olinda, doutor? O senhor passou tão pouco tempo por lá que não deve ter aproveitado quase nada...
        -          O carnaval? Que carnaval? Eu não sei nada de carnaval. Vou chamar o anestesista e seu coração vai ficar novinho em folha!

        E assim, mais uma cirurgia com sucesso foi realizada, mas o doutor nunca mais falou o que havia acontecido naquele carnaval e a Princesa do Ébano embarcou para Brasília sem deixar rastros de carnaval.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TUDO POR DINHEIRO!

http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2011/07/gdf-propoe-isencao-de-ipva-carro-zero-no-primeiro-emplacamento.html


Porque ele não propõe um projeto que destine todo o IPVA arrecadado com esses carros zero para construção e reforma das escolas e hospitais que a cidade precisa? Alguns poucos IPVAS de vários modelos que vemos desfilando pela cidade dariam para sustentar, e bem, várias escolas que, como a que trabalho, recebe do governo R$ 21.000,00 (vinte e um mesmo) por ano para se manter, o que talvez dê para o papel higiênico, já que os banheiro são tão ruins que, só mesmo no aperto. Porque ele não isenta o trabalhador assalariado, qua ganha uma merreca, do pagamento do IPVA de seu carro? Será que quem compra um carro zero precisa mesmo dessa isenção? E se precisa, porque compra um carro zero e não um mais barato? Porque só se pensa em isenção e não em destinação? E o impacto ambiental que tal medida provoca? Nisso ninquém pensa. O munda está se acabando e tem muita gente que ainda só olha pro próprio umbigo. DEPOIS NÃO RECLAMA!