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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O folclore na obra de Villa-lobos e o papel do artista no regate da identidade nacional

 

Este texto foi escrito em 1996, durante o curso de Habilitação em Música na UnB, com a colaboração dos então alunos como eu Renato Vasconcelos e Renato Amaral

 

 

 

 

"...porque é neste princípio do homem

que nasce numa terra,

que se embeleza dela mesma,

para se enfeitar dela mesma,

e se mirar nela mesma,

é que sinto o que pode ser de universal,

porque, para mim, quanto mais somos

da terra que nascemos,

mais somos universais."

 

(Heitor Villa-Lobos)

 

 

INTRODUÇÃO

  

"O Brasil é o país do futuro". Quantas vezes e em quantos lugares já ouvimos isso! Será que somos? Será que temos condições de arcar com tal responsabilidade? Temos estrutura para virmos a ser um País sem fome, sem analfabetismo? Um país de um povo em crescimento, soberano, íntegro e, principalmente, vivo?

Situada tal pergunta no banco dos réus de um tribunal da lógica, promotoria e defesa teriam argumentos para um debate que se estenderia pela eternidade afora. Temos tudo para ser e tudo para não ser o "país do futuro".

O que fazer com tamanho leque de possibilidades? Aí reside o perigo. O excesso de opções pode vir a ser um tiro pela culatra na cara do atirador. A formação do povo brasileiro, como a de qualquer povo, se faz através da "administração" das possibilidades, das escolhas, dos rumos que tomam as vidas das pessoas.

Tal dinâmica se dá dentro de níveis cada vez mais abrangentes, sempre coletivos, mas tem no cultural o sua "mola-mestra". A hegemonia da cultura na psicologia humana é o grande desafio com que se depara o indivíduo. Isso porque, ao estilo "bola de neve", a cultura é o seu próprio fermento. Somos engolidos pela cultura minuto a minuto e então corremos atrás de nossas origens, numa busca incansável, para não nos perdermos no meio dessa diversidade cultural, de enormes proporções. A miscigenação progressiva das três raças constituintes de seu povo, se pesquisada, avaliada e difundida mostrará que existem subsídios para uma formação cultural extremamente rica, mas que se consome sob o rolo compressor da "bola de neve" da cultura.

O desequilíbrio sócio-econômico tem criado, nos países do 3o. Mundo, um mercado certo para produtos culturais exportados pelos "senhores da comunicação", causando nos primeiros a descaracterização progressiva da sua identidade cultural[1], e aniquilação dos seus referenciais via importação direta.

E que opções tem a sociedade nessa convivência às vezes não muito pacata? Dufrènne[2] fala de três soluções propostas: uma passiva, de fornecimento de condições para uma auto-imposição; outra, radical, defensora da cultura autóctone, predominante nos países de 3o. Mundo; e uma terceira, sintética, para onde se orientam as ideologias nacionais do tipo "latino-americanas".

A terceira opção de Dufrènne é característica das sociedades tradicionais, que sofrem com o impacto das culturas industriais modernas. A comunicação moderna provoca, a cada segundo, o choque entre tradição e renovação. O resgate da tradição se torna talvez o único veículo capaz de manter-nos unidos às nossas identidades, desde que baseado na síntese e não na oposição pura e simples.

 

DE BONAPARTE À SEMANA DE ARTE

 

Sob um Império que importava até imperadores e abastava a nobreza, que não trazia o menor vestígio de tradição, regionalidade ou força, vivemos uma independência socialmente ilusória, que nos subjugou às hegemonias políticas e ao capitalismo industrial do início do século XX. Exportava-se café; importava-se moda. Era a belle-époque brasileira, do consumismo importado, dos versos brasileiros declamados em francês nos saraus proporcionados pelas elites.

Mas, lembrando o 'tiro pela culatra", tal desenvolvimento forneceu condições essenciais para geração de um movimento contrário, rumorejados nos cafés por artistas, estudantes, jornalistas... e que já não mais aceitava a visão colorida do Brasil, ao gosto das elites. Era o germe de uma visão crítica da sociedade brasileira, também fervilhando na organização política dos operários e das minorias e difundida através do nascimento da pequena imprensa de protesto. Era o desejo de emancipação intelectual, a busca da realidade brasileira sem idealizações.

Tal dinâmica vai conduzir à Semana de Arte Moderna, em 1922. A divulgação das teorias vanguardistas européias e a busca da verdadeira identidade nacional, envolvendo toda a estrutura sócio-econômica do País, gerou mudanças nos meios de expressão. O nacionalismo crítico de autores como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha e muitos outros, encontrava-se na busca da matéria brasileira, inserindo na produção artística mudanças profundas, que levarão a uma exploração cada vez mais criativa do folclore e da tradição oral.

 

HEITOR VILLA-LOBOS

 

No caldeirão desse universo cultural surge a figura iluminada de HEITOR VILLA-LOBOS (1887-1959), em quem o nacionalismo encontra sua mais perfeita expressão. Órfão de pai aos doze anos, passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes até se tornar compositor e regente, "de importância decisiva no amadurecimento de uma expressão nacional".[3] Através do estudo do violão, teve contato com os chorões do Rio de Janeiro. Este contato com o popular marcaria toda sua vida daí em diante, desenhando uma busca pelo folclórico, que se delineou sobre a colheita de material regional em todos os cantos do Brasil, anotados em viagens que fazia desde os dezoito anos. Essa procura incansável resultou em um acervo respeitável do cancioneiro popular - parte registrado no seu "Guia Prático" para o ensino do canto orfeônico nas escolas.

Villa-Lobos lutava contra as influências externas. "Quando sinto a influência de alguém - dizia - me sacudo todo e salto fora” [4]. Sentia que o presente século trazia, de um lado, o paradoxo do crescimento universal do padrão de vida mundial, e de outro, o amor progressivo, turístico, ao pitoresco, já agonizante aos golpes da descaracterização.

Sua imaginação produtora tateava pelos elementos primários e se encontrava com as células simples, ainda não modificadas pela presença dos demais elementos de nossa raça mutável e múltipla. Pode-se sentir em Villa-Lobos a presença de singulares afinidades com nosso mais simples modo de ser; com a as particularidades de nossa alma.

Utilizando assiduamente o material folclórico, absorveu dele indicações preciosas e aproximou-o do "nosso verdadeiro clima de alma, de atmosfera dentro da qual são geradas nossas determinantes expressionais” [5]. Mas Villa-Lobos não se restringiu ao tema popular, sendo sua obra, ao contrário, extremamente prolífica. Suas primeiras composições traziam a influência dos estilos europeus da virada do século - como o alto romantismo francês. Com suas Danças Características Africanas, para piano, e com os bailados Amazonas e Uirapuru começa a desmoronar-se o molde europeu.

Em uma primeira viagem a Paris, entra em contato com a vanguarda européia e nasce sua fantástica série dos Choros, e após uma segunda permanência na França, volta ao Brasil em 1930, dedicando-se, a partir daí, a desenvolver um importante trabalho educativo, patrocinado pela Revolução de 30, período que nos dará maravilhas como as suas Bachianas Brasileiras, que mostram a devoção por Bach.

Sua obra é muito extensa e não cabe aqui uma análise detalhada. Passeando pelo folclore Villa-Lobos nos deu as Cirandas, no Ciclo Brasileiro, música pianÍstica de forte influência impressionista, inspiradas diretamente em motivos folclóricos, Vamos Atrás da Serra Calunga e Teresinha de Jesus.

Mas é com seu Guia Prático, anteriormente citado, criado a partir de harmonizações suas para músicas do cancioneiro popular, arranjadas para o ensino de canto coral, que o aproveitamento do folclore é mais direto. É nesse ponto que se desenrola toda preocupação de Villa-Lobos com a educação, e toda sua vontade de tornar acessíveis as riquezas do folclore aos alunos de educação musical, em que ele depositava tantas esperanças.

Sabemos que a música é elemento unificador; sabemos que é capaz de promover e resgatar impulsos emocionais que podem ser positivos ou negativos; sabemos também que "a cultura popular pode intervir como elemento moderador no processo cultural, pois dispõe de instrumentos próprios para o equilíbrio necessário ao seu harmônico desenvolvimento".[6]

Assim, consideramos que na música, mas não somente nela, está um meio eficiente de se resgatar a identidade nacional, através da pesquisa e difusão - e a música tem alto poder para tal - da memória cultural brasileira, dos temas populares ligados às tradições antigas.

 



[1]Segundo modernos estudiosos do problema, "nestes países, a cultura nacional não é mais vivida como antes, numa espécie de inocência feliz. Tendo sido ameaçada, depreciada, muitas vezes semidestruída, ela agora é pensada e desejada, como um meio de auto-afirmação intransigente e apaixonada". (artigo de Maria Célia Machado, em REVISTA HUMANIDADES, vl. 22, pg. 100)

[2]ibid.

[3]DICIONÁRIO DE MÚSICA. Zahar, em Villa-Lobos, Heitor, pg. 401)

[4]Luiz Paulo Horta. Em artigo para a Revista HUMANIDADES, vl. 13, pg. 83)

[5]Andrade Murici. VILLA-LOBOS. UMA INTERPRETAÇÃO., PG. 14)

[6]Bráulio do Nascimento em Carlos Rodrigues Brandão. O QUE É FOLCLORE, pg. 23. Ed. Brasiliense. 3a. ed. 1983.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. 3a. ed. Ed. Brasiliense. 1983.

JUNIOR, Benjamim, Abdala e CAMPEDELLI, Samira Youssef. Tempos da literatura brasileira.  Ed. Círculo do Livro. SP.

ALMANAQUE ABRIL 89. Ed. Abril. SP.

HORTA, Luiz Paulo. O som de Villa-lobos: terra e paixão, REVISTA Revista Humanidades. Ed. UnB. Brasília. 1987. Vol. 13.

MACHADO, Maria Célia. Villa-lobos e o dilema da cultura brasileira. Revista Humanidades. Brasília: UnB, 1989, vol. 22.

MURICY, Andrade. Villa-lobos - uma interpretação. MEC. BSB.

PEREIRA, Marco. HEITOR VILLA-LOBOS - sua obra para violão. Brasília: ed. Musimed. 1984. DICIONÁRIO DE MÚSICA - Zahar Editores. RJ. 1985.

ALVARENGA, Oneyda. Música Folclórica e Música Popular. revista Brasileira do Folclore. Ano IX. no. 25. MEC/CDFB.

REVISTA BRASILEIRA DE MÚSICA. 87/88. Vol. 1, pg. 55/56. A Música Popular e Villa-Lobos.

 

 

 

 

 

 

 

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