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domingo, 25 de novembro de 2012

O Valioso Tempo dos Maduros


"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa,... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!"

Mário de Andrade (1893-1945)


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CURTINHAS

Poluição Sonora


Sempre fui um sujeito totalmente contrário à propaganda em carros de som. Acho uma forma abusiva, já que nem mesmo tapando os ouvidos conseguimos ficar alheios ao que sai da boca dos outros. Sem contar que não há nenhum tipo de regulamentação que proteja, por exemplo, os seus filhos de escutarem o que quer que venha na cabeça dos que produzem os textos. Suponha que um sujeito resolva liquidar um estoque de armas de brinquedo e saia por aí divulgando em carros de som. Imagino que grande parte dos pais e da sociedade em geral não ia gostar disso.
Mas esse é só um ponto. Também há o incômodo, a invasão sonora, sem refino, sem cuidado, muitas vezes cheia de ruídos, “carro da pamonha”, “carro da melancia”, “carro do gás”, “carro das panelas”, “carro do abacaxi”, e por aí vai, fora os que divulgam tudo aquilo que lhes pagam para divulgar, despejando uma infinidade de produtos de uma infinidade de estabelecimentos que até confundem àqueles que escutam.
Hoje pela manhã, enquanto lia novamente o delicioso ”Chega de Saudade” do Ruy Castro, escutei um desses carros divulgando vários produtos hortigranjeiros. Ouvi que tinha alface a tantos centavos, laranja a tantos reais o quilo, batata inglesa por tanto, e assim entrou e saiu do meu campo auditivo durante uns trinta segundos anunciando diversos produtos e, mesmo que quisesse, eu não saberia quem realmente estava vendendo aquilo e onde porque o nome do anunciante ele não falou. O sujeito polui o ambiente sonoro, invade sua residência com a propaganda e o discurso dele e ao final, pelo menos pra mim, não informou nada. Fosse eu o anunciante teria que “demitir” alguém.  É a  velha política do desperdício de tempo e dinheiro que ainda assola o País.
Mas, tudo bem, temos o futebol.