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quinta-feira, 10 de março de 2011

A LÍRICA DA CHAMA 5


V DE VULVAS (Carlito Azevedo)

Penetráveis
              sob a dor áspera
    da estocada cega (que
vai ao fundo
               e rebenta seu cristal de água) ou
   sob digital delicada (um
           beija-flor albino pousado
                  num fio de mel na Gávea)
                                           que ruboriza
                                            ao marasquino
                  tornam-se entanto
                  intratáveis
                                            se, vazias de desejo,
                  nada se lhes dá – nem luz nem
                                                  riso – nos desvãos
                                                               de mucosa e
                                                                     corrosão


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997

VULVA (Alexei Bueno)

Aracnídea boca
Sem voz, sangrando um ente
Desfeito eternamente
Num fio que se apouca

E tomba. Casa em chamas.
Umbral do sono. Rio
Do olvido, onde um cicio
De carne eriça as ramas.

Gosto do todo. Ogiva
Da vontade e do nada
A haurir, coralizada,
Quanta ânsia nela viva.

Sarça de extintos eus
A arder. Sol da penumbra
Onde se acende e obumbra
O oco onde esteve Deus.


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997



segunda-feira, 7 de março de 2011

A LÍRICA DA CHAMA 4


POEMA EM FORMA DE CARTA (Augusto Massi)

Quanto tempo custa a um analfabeto
empregar corretamente genitália?
Quantos textos um homem de letras
precisa escrever para usar boceta?
Quantas primaveras uma menina leva
para saltar a palavra perereca?
Quando se perde a virgindade do poema?
Por que tamanha tara pela metáfora?
Por que falar leque, búzio, flor?
A xoxota não cabe no ventre do poema?
Como arrancar o cabaço da imagem?
A musa tem orgasmo, menstrua, urina?
Como ela se refere ao próprio sexo?
Entre mulheres importa o tamanho da vagina?
No amor é possível sussurrar clitóris?
Estou cansado de tanto engenho
dos ginecologistas da língua,
das propagandas de absorvente.
Por que essa palavra entre os dentes?
Não existe um ponto intermediário
onde se fundem o som e o sentido?
Onde se fodem baixo calão e dicionário?
Quantas perguntas sem resposta.
Leitor, perdoe esse perverso polimorfo,
que recifra em sêmen, em verso, em prosa,
o inexplicável lirismo da xoxota.


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997


SEM TÍTULO (Claudia Roquette-Pinto)

debruçar-se sobre seu aroma
faz abrir mais ainda
as pétalas, de onde ele assoma.
e enquanto mais fundo se adentra
(vermelho-puro caindo ao último grau de escuro – magenta do pistilo), vê-lo.
ei-lo que se deslinda
-impaciente centelha.
o dedo, destro, hesita,
em gesto de abelha,
ante


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997


domingo, 6 de março de 2011

A LÍRICA DA CHAMA 3

COMPOSIÇÃO (Rubens Rodrigues Torres Fº)

Enceguecido por esse teu corpo,
paisagem lunar em noite de Terra cheia,
vejo que o Mar da Tranqüilidade me hipnotiza
com sua ausência de algas e sereias.
Mas quem quer atmosfera? Basta
a vertigem veloz soprando nos cabelos
que ornam as regiões mais aprazíveis
da imensidão resplandecente e sem arestas


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997




LOA (Carlos Ávila)
aos pequenos lábios

um brinde
uma guirlanda
um belo verso
uma oferenda
(roubo a ronsard)
je te salue ô merveillette fente
cantando-te
não pago prenda
apenas para que aprendas
e saibas de cor
que a fenda
(pettit trou)
é flor


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997

sexta-feira, 4 de março de 2011

A LÍRICA DA CHAMA 2


CARTA DE TOCAR (Angela de Campos)

em Volta da maÇaneta-
um Pomo, um dOm
um Silêncio que contrai A porta-
solUços aBalam e dEntro dessa Flor
(Hermética por estaR aberta
Gera uma beleZa coberta de metals,)
crisálLida perfeiTa
prolonga o toM
dissolve o espaNto num lance De dedos
Que apertam as teclas do Jogo


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997



CÓDIGO MORSE (Nelson Ascher)

Se indagas como, assim,
sei que, no fundo, atrai-te,
mais que o de Shere-Hite,
o Relatório Kinsey

e, quanto ao nosso encaixe
futuro, não me dói de -
clarar que, a Sigmund Freud,
prefiro Wilhelm Reich –

só para que me entendas
melhor, deixa-me, dentro
das regiões pudendas,

expor meu argumento
- com dedos – à mucosa
do teu botão de rosa.


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997


quinta-feira, 3 de março de 2011

A LÍRICA DA CHAMA

Em julho de 1997 a convite da Folha de São Paulo, quinze poetas escreveram versos inspirados no órgão sexual feminino, sob o título A Lírica da Chama. Durante esta semana transcreverei neste blog os poemas publicados. Iniciando temos Waly Salomão e Arnaldo Antunes.



EXTERIOR (Waly Salomão)

Por que a poesia tem que se confinar
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
                                da greta
                                da gruta
e se espraiar além da grade
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
- CARPE DIEM! –
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
                   polimórfica e perversa,
não poder travestir-se
                   com os clitóris e balangandãs da lira?


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997




BOCETA (Arnaldo Antunes)

da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba
o tempo


Fonte: Folha de São Paulo, domingo, 20 de julho de 1997