Blog Player

segunda-feira, 20 de junho de 2011


Educação artística: a importância do ensino de uma linguagem não verbal


Quando observamos os currículos das nossas escolas verificamos que as matérias de arte ocupam um pequeno espaço entre as outras, consideradas “mais sérias”. A profissionalização (especialização) constitui-se no objetivo básico do ensino: treinam-se as pessoas para que atuem na sociedade como cidadãos respeitáveis e profissionais competentes e, a partir disso, as “aulas de arte” são relegadas ao plano do divertimento, do alívio de tensões causadas pelas aulas chatas e repressoras das outras matérias. Os que assim ainda pensam não reconhecem na escola um lugar de formação de autoconceito, de autossignificação e de autodireção; um espaço de informação e transformação; de aquisição de virtudes conquistadas através do treino da reflexão pessoal e espontânea, através da criatividade e do fazer. Não são capazes de ver no aprendizado artístico um atributo de fundamental importância para a formação do indivíduo.
Toda construção da educação e, por conseguinte, da cultura, fundamenta-se no aspecto comunicacional da linguagem, construção simbólica característica do pensamento humano. Segundo Vygotsky, a linguagem tem papel mediador na formação do pensamento, apresentando-se sob duas funções básicas: intercâmbio social (comunicação com seus semelhantes) e pensamento generalizante (ordenação do real sob uma mesma categoria conceitual; instrumento do pensamento). Com base nessas reflexões construiu-se um modelo ensino-aprendizagem (Daniels, l994) em que a experiência conceitual da criança, através de atividade negociada, reflete-se de forma individual e, posteriormente, interpessoal e socioculturalmente, a partir do relacionamento (experiência) com as pessoas próximas e com os meios de comunicação e informação em geral.
A construção desse modelo reflete o aspecto verbal da linguagem, como não poderia deixar de ser, visto que é esse o aspecto preponderante nas relações sociais de comunicação. Essa é uma visão extremamente objetiva e prática da função da linguagem verbal e, mesmo em concordância com tal proposição, pergunto: será a linguagem verbal suficiente para a construção de um ser social mais bem adaptado e em melhores condições de contribuir para a melhoria da sociedade? De que forma se enquadraria o ensino de uma linguagem não verbal nos objetivos propostos de crescimento pessoal e social?
A linguagem verbal baseia-se na palavra, que tem no significado seu componente essencial. A otimização da comunicação verbal se dá pela concentração de significados. Quanto menor o espectro significante da palavra mais objetiva e imediata é a comunicação. A experiência social dentro desse contexto leva, por outro lado, a uma retração dos processos psicológicos abrangentes, holísticos, práticos, que podemos observar de forma clara na visão sincrética da criança. Essa visão se perde a partir do momento em que o aprendizado deixa o campo da experiência para sustentar-se nas referências e ordenações de diferentes sistemas conceituais, mediadas pelo conhecimento já consolidado na cultura. Não mais o fazer e sim o saber; não mais o ser e sim o imitar.
A linguagem não verbal, ao contrário, baseia-se não na comunicação e sim na expressão, onde a transmissão é feita não através de significados, mas na indicação de sentimentos e sensações. Ao contrário da palavra, a expressão é ambígua e depende da interpretação de quem a percebe. Mas, como enfatiza Duarte Jr (1985), a comunicação e a expressão não são fenômenos isolados já que qualquer forma de comunicação carrega em si um tipo de expressão e vice-versa.
O conhecimento humano é um processo (jogo) entre vivenciar e simbolizar, entre o que é sentido e o que é pensado. Sentir é a nossa primeira impressão das coisas. Posteriormente elaboramos de forma racional nossos sentimentos. A linguagem verbal é capaz de classificar e simbolizar os sentimentos, mas, pela sua própria natureza conceitual, não pode descrevê-los. Nesse ponto, a arte surge como uma tentativa de fazer o que os signos linguísticos não são capazes de realizar. “... a arte é a criação de formas perceptivas expressivas do sentimento humano” (Lang, 1971: 82). A arte molda os sentimentos em uma forma harmônica e assim os percebemos.
Enquanto o significado dos signos linguísticos reside fora deles, o sentido expresso por uma obra de arte reside nele mesmo. Uma alteração na sua forma altera o seu sentido. Podemos inferir que a linguagem verbal é fragmentadora do sentir ao lhe atribuir significados.
A criação artística é um processo de elaboração de coisas inexistentes. Através da imaginação, o mundo se ordena em formas significativas, e assim ela se constitui no dado fundamental do universo humano. Einstein já falava sobre as leis “altamente universais”, que só podem ser alcançadas por dedução, por intuição, algo como um “... amor intelectual pelos objetos da experiência”.
A capacidade expressiva está na sensibilidade de captação dos sentimentos de comunidade humana. É uma forma holística, globalizante de se relacionar com os fatos, uma condição de vivência que gera respostas mais práticas e rápidas, devido a sua característica dedutiva. Personalidades como Almir Klink, que viajava solitário pelos mares do Planeta por períodos às vezes superiores há um ano, são constantemente solicitados para proferir palestras a empresas altamente qualificadas sobre administração de situações, planejamento estratégico, solução de problemas, pois suas soluções são mais produtivas e imediatas do que as que proporcionam os especialistas. O vivenciar a experiência, o fazer, o buscar as soluções por si mesmo desenvolve critérios de avaliação sólidos e pertinentes para o desenvolvimento humano.
A proposta de educação artística baseia-se na redescoberta da visão original, totalizadora e dedutiva, numa forma de educação integral que propicie possibilidades de expressão e comunicação inovadoras, que ampliem a capacidade de percepção das coisas, estimulem a criatividade e formem o gosto estético (Reis: 1987) ou (Reis, 1987).  Propõe-se um desenvolvimento global da personalidade, uma forma de conhecer as próprias emoções como fundamentos do nosso “eu”, um desenvolvimento do (retorno ao) pensamento dedutivo, à imaginação criadora, à oportunidade, só vivenciada na arte, daquilo que não experienciamos em nossa vida cotidiana. A Educação artística propicia uma?
Também no aspecto sociocultural a educação proporcionada pela arte tem sua importância, pois insere o indivíduo, através do contato com as obras de arte, na forma como os seus contemporâneos exprimem o seu sentimento de época.
No campo interdisciplinar, o ensino de arte constitui-se num recurso pedagógico de enorme poder, pois desenvolve um sentido de percepção geral, concentração, reflexão e expressão, fundamentais no aprendizado de qualquer matéria. Na escola de hoje, em processo de mudança, ainda não há espaço para manifestações individuais. Convive-se com respostas prontas que geralmente nada têm a ver com as ansiedades de cada aluno. Não se estimula a elaboração de uma visão de mundo particular.  Existe um imenso buraco entre o que se fala e o que se faz. Entre a teoria e a prática  (Jr & Duarte:  1985). A educação artística, por seu lado, dá ao indivíduo a oportunidade de manifestar suas inquietações, de elaborar seus sentimentos. Ao contrário das disciplinas “formais” na arte-educação valoriza-se o processo e não o produto.
Quando pensamos que o mundo se faz de elaborações, de concretização de aspectos não existentes, podemos deduzir que o crescimento está na experiência e não na passividade; no fazer e não somente no saber. A criança, a partir de oito anos de idade, “perde” essa “capacidade artística” inerente a sua visão sincrética e passa a comparar detalhes abstratos e, a partir daí, todo seu desenvolvimento consciente exime-se daquela visão prática e globalizante que era característica sua e passa a desprezá-la.
Devemos ajudar a criança a apreciar o seu trabalho dentro de um nível sincrético. Essa forma de percepção tem que ser firmemente estabelecida antes que se molde a percepção analítica, pois, somente assim, as duas podem caminhar juntas sem que se tenha que abrir mão de uma delas. Os aspectos restritivos e expansivos das linguagens verbal e não-verbal, respectivamente, devem equilibrar-se para a otimização do desenvolvimento e o caminho para isso é a arte-educação.

Marcos Bassul
1999


BIBLIOGRAFIA:

EHRENZWEIG, A. A ordem oculta da arte: a psicologia da imaginação artística.  Weidenfeld e Nicolson:  Londres,  1967.
FISCHER, E.  A necessidade da arte. Verlag der Kunst. Dresden,  1963.
OLIVEIRA, M. K.  Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio histórico. São Paulo:  Scipione. 1993;
CROSS, J.  O ensino de arte nas escolas. São Paulo:  Cultrix. 1983.
JR,  J. F.D. Por que arte-educação? Campinas:  Papirus. 1985.
PORCHER, L. Educação artística: luxo ou necessidade? São Paulo:  Summus.    1982         
REIS, S. L. F.   Educação artística: introdução à história da arte. Belo Horizonte. Ed. UFMG. 1988.
DUARTE, M.  S. A educação pela arte: o caso Brasília. Brasília:  Thesaurus.  1983.
KIADÓ, C.  Educacion Musical en Hungria. Corvina Kiadó, Budapeste e Real Musical. c/Carlos III n. 1, Madrid - 1981.

Nenhum comentário: